Da série: Por que sair do Brasil ? [3]

Até agora eu havia postado somente casos acontecidos com pessoas que não conhecemos. Hoje, vou falar sobre a minha experiência de ontem.

Le Poussin fils estava ontem brincando na casa da vó com meu sobrinho. Aliás, eles adoram ficar por lá. Quando cheguei do trabalho, meados de 19h. fui com junto a Poussin Mère et Poussin fille buscar o pequeno bagunceiro.

Chegamos, rapidamente recolhemos as coisas e fomos embora. Em torno das 20h, fazendo o trajeto que sempre faço, parei em um sinal. É o mesmo caminho que faço sempre saindo da casa dos meus pais. Haviam vários carros parados.

De repente, uma moto para de maneira extremamente suspeita do meu lado. Olhei em torno imediatamente analisando as rotas de saída e percebi que Possuin fils estava com a janela totalmente aberta olhando para fora, apoiado na mesma. Eu também estava com a janela totalmente aberta.

Imediatamente quando o motoqueiro parou do meu lado, olhei para seus olhos. Dá forma que ele parou entre os carros e olhou para a moto que veio atrás, já senti aquela sensação de “fudeu” (desculpe a palavra, mas essa é a melhor forma de descrever a sensação do momento).

Mantive os olhos nos olhos do motoqueiro e já ameacei sair com o carro. Notei que ele me respondeu o olhar com uma cara de “você já era”. Levantou a camisa e lá estava aquele revólver preso a cintura. De cara já pensei que não daria para fugir. A posição estava muito exposta e o risco de levar um tiro nas crianças no banco de trás seria grande.

Simplesmente, desisti e esperei o momento. Ele olhou novamente para meus olhos segurando a arma, mas ainda presa a cintura. Então olhou para o banco de trás.

No banco de trás, Poussin fils nem imaginava a situação. Olhava para alguma coisa fora do carro.

O bandido olhou para ele, olhou para Poussin fille no assento infantil e voltou a olhar para os meus olhos.

Não sei exatamente o motivo, mas ele soltou a arma e escondeu novamente com a camisa. Nesse momento eu imediatamente virei a direita no sinal vermelho com trânsito e tudo. E fui embora.

Poussin Mère estava falando (eu nem lembro o quê). Falei para ela da situação. Geralmente ela não percebe esse tipo de coisa mesmo. Já não é a primeira vez que somos quase assaltados, mas dessa vez, a coisa foi muito mais tensa.

Não sei o que o fez desistir do assalto. Se foram as crianças no banco de trás, se foi o fato deu ter ficado objetivamente encarando os olhos dele.

Mas assim que sai pensei: acho que isso não me aconteceria no Canadá. Eu acho. E tive a certeza forte que não quero mais ficar aqui.

Até chegar em casa, confesso que fiquei um pouco abalado. Triste.

Poussin fils escutou eu falando com a mãe e ainda disse: “a gente ia ser assaltado né pai ?”

Pois é. Pensei que aquele era uma péssima maneira de terminar o dia.

E seguimos em frente nessa selva.

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11 respostas em “Da série: Por que sair do Brasil ? [3]

  1. Olá Família,

    Muito triste ler que cada vez mais somos reféns dos bandidos e que a nossa vida esta nas mãos deles! Realmente aqui no Canadá a probabilidade de passar por uma situação como a que você descreveu e mínima. A violência e sim um fator que pesa muito na decisão de vir para ca e de continuar por aqui mas a gente paga caro por isto viu! No começo do teu post você escreve que teu filho estava brincando na casa da avo com o primo e que ele adora isto… A distancia da família as vezes mata, rsrsrs, este e o preço que pagamos!

    • É Pri … Ponderamos várias vezes sobre o que vamos perder ao sair. Na realidade a única coisa que pesa contra é essa vivência dos meus filhos com os avós e primos.

      Considerando que eu não tive muito contato com meus avós quando eram vivos (vivíamos em cidades diferentes, muito longe), sei que essa experiência para meus filhos é ótima. E meus pais também estão ficando mais velhos, então temos essa preocupação.

      Mas por outro lado, não adianta nada ficarmos perto e presos dentro de casas em condomínios, com medo de sair e medo de morrer a qualquer momento por uma criança que está brincando de ser bandido. Isso não é vida. Cresci em cidade grande e não quero que meus filhos tenham as experiências e testemunhos de violência e intolerância que vivi.

      Sei que a distância irá doer, mas não temos opção: queremos uma vida melhor para eles.

  2. Cara,

    Lendo seu relato me veio um misto de tristeza com raiva.

    Tristeza, pois apesar de não morar mais em SP há 12 anos, nasci ai e gosto da cidade, gostaria que algumas pessoas não estragassem a mesma, infelizmente hoje SP se tornou um lugar péssimo para se criar uma família…

    Raiva por nós se sentirmos totalmente impotentes com essa situação, de como várias pessoas acham isso normal e “faz parte da vida”. Isso não é normal e não devia ser visto com essa banalidade e normalidade que é considerada hoje em dia.

    Eu sei que quando eu chegar no Quebéc eu vou começar em um emprego pior, ganhar menos, mas e daí? O fato de poder andar com meus filhos (ainda não tenho) no parque sem me preocupar, isso é qualidade de vida! e não ter dinheiro para morar no Morumbi e ter um carro top e viver numa gaiola de ouro.

    Só nós que estamos nessa jornada sabemos que o visto representa muito mais que uma simples mudança de país…. significa um futuro melhor para nossa família, independente de quanto $$$ teremos na conta do banco.

    Abraços e siga firme na sua jornada. Tome esse acontecimento como motivação para saber que toda essa luta e espera no processo valem a pena.

    Abraços,

    Victor

    • Justamente Victor.

      Não posso aceitar quando as pessoas dizem: “isso é assim mesmo” ou “em todo lugar do mundo é assim, aceite”. Não dá.

      Pensando nas condições econômicas, vamos perder muito em relação ao poder aquisitivo. Mas sei também que iremos ganhar muito em qualidade de vida. E ainda, esse poder aquisitivo no Brasil não nós traz nenhuma melhoria real na vida. São supérfluos, coisas que vivíamos no passado sem e que não nos irão fazer falta no futuro.

      O que a gente precisa mesmo é de paz e respeito. E infelizmente, não podemos encontrar tal coisa por aqui.

  3. Gente, que horror! Nossa, fiquei muito triste mesmo de ler esse relato, é uma situação muito tensa, triste, inaceitável!

    Felizmente, sabe-se lá o que deu na cabeça do assaltante, eles decidiram que vocês não eram um bom alvo. Talvez pelas crianças, quem sabe?

    É torcer para que o governo canadense não demore tanto assim a liberar os vistos de quem está entrando no processo agora e seguirar firme a barra até lá. Muito em breve a família de vocês estará feliz e segura em alguma cidadezinha do interior do Québec, bem pacata e tranquila!

    Abraços,
    Lidia.

    • Esperamos que sim Lídia. Apesar de não saber o que se passa na cabeça de um assaltante, aquele momento realmente foi abençoado.

      Apesar que mesmo não ter sido efetivamente assaltado, a sensação de ter sido ameaçada nos faz sentir uma agressão indescritível. No momento fiquei muito triste e o que mais me veio a cabeça é sobre quando poderemos ir embora.

      Mas temos pensamento positivo que tudo dará certo. E nós veremos por lá na neve !

  4. Não, não é assim em todo lugar do mundo. Pelas últimas estatísticas que vi, há 10 homicidios por 100 mil habitantes em SP. Essa é uma das menores taxas do Brasil (se não a menor, não me lembro), no Rio o índice é de 24, por exemplo. Essa semana, a notícia de que a taxa de homicídios aqui subiu 7% no último ano para 1,73. Ou seja, uma diferença de no mínimo 5 vezes, isso se vc não levar em consideração que a taxa em SP caiu nos últimos anos (não sei se isso é sustentável), se vc confia nas estatísticas do Brasil e que as mortes aqui são normalmente guerra entre gangues (Montreal tem uma presença forte da máfia italiana) ou crimes passionais (que são a maioria dos casos que aparecem na imprensa). Estou aqui a mais de 2 anos e NUNCA ouvi falar de assalto a mão armada. As pessoas ficam tão chocadas com as histórias daí que parei de contar.

    • BV, é sempre um alento ler essas notícias como a sua. Temos realmente esperança para viver em um lugar em paz, onde podemos sair na rua tranquilamente.

      Quanto a essas estatísticas do Brasil, infelizmente eu não acredito. Isso porque esse homicídios são aqueles relatados oficialmente. Se você olhar a estatística oficial de desaparecidos, vera que essa taxa sobe exponencialmente. É claro que um desaparecido, não necessariamente está morto, mas aqui no Brasil pode se ler as entrelinhas. É a mesma questão do furto e assalto qualificado. As estatísticas brasileiras são totalmente fora da realidade porque as pessoas não vão a delegacia e não fazem boletim de ocorrência. Assim, oficialmente, esses delitos não são considerados.

      Esse não é o primeiro tipo de violência que sofri aqui em São Paulo. Ao todo na minha família (somando meus pais e irmãs), durante os últimos 15 anos, já temos 7 carros roubados (1 deles foi meu) e uma moto roubada (também era minha). Meus pais tiveram a casa assaltada duas vezes e eu mesmo, já fui assaltado a mão armada 2 vezes andando nas ruas.

      Acho que deve ser nosso carma sustentar bandidos. Antes que meus filhos fiquem sem pai por algum bandido maluco, quero ir embora e recomeçar a vida sem medo e sem paranóia.

  5. a violência implicita de SP é algo que sempre me incomodou….
    e ela esta ali, ao lado, estamos sempre desviando mas ela é onipresente….

    venham logo, o Canada / Québec efetivamente proporciona essa tranquilidade de espirito

  6. Nossa, fiquei tenso só de ler. Felizmente morro em uma cidade pequena aqui no Brasil, aqui isso dificilmente acontece, não lembro de relatos. Nos últimos 2 anos infelizmente os bandidos começaram a invadir casas de pessoas ricas na cidade, fazendo as famílias de refém enquanto carregam o que podem. Isso numa cidade com pouco mais de 25.000 habitantes.

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